CINCO HORAS

 
Minha mesa no Café,
Quero-lhe tanto... A garrida
Toda de pedra brunida
Que linda e fresca é!

Um sifão verde no meio
E, ao seu lado, a fosforeira
Diante ao meu copo cheio
Duma bebida ligeira.

(Eu bani sempre os licores
Que acho pouco ornamentais:
Os xaropes têm cores
Mais vivas e mais brutais.)

Sobre ela posso escrever
Os meu versos prateados,
Com estranheza dos criados
Que me olham sem perceber...

Sobre ela descanso os braços
Numa atitude alheada,
Buscando pelo ar os traços
Da minha vida passada.

Ou acendendo cigarros,
— Pois há um ano que fumo —
Imaginário presumo
Os meus enredos bizarros.

(E se acaso em minha frente
Uma linda mulher brilha,
O fumo da cigarrilha
Vai beijá-la, claramente)

Um novo freguês que entra
É novo actor no tablado,
Que o meu olhar fatigado
Nele outro enredo concentra.

É o carmim daquela boca
Que ao fundo descubro, triste,
Na minha idéia persiste
E nunca mais se desloca.

Cinge tais futilidades
A minha recordação,
E destes vislumbres são
As minhas maiores saudades...

(Que história de Oiro tão bela
Na minha vida abortou:
Eu fui herói de novela
Que autor nenhum empregou...)

Nos cafés espero a vida
Que nunca vem ter comigo:
— Não me faz nenhum castigo,
Que o tempo passa em corrida.

Passar tempo é o meu fito,
Ideal que só me resta:
Pra mim não há melhor festa,
Nem mais nada acho bonito.

— Cafés da minha preguiça,
Sois hoje — que galardão! —
Todo o meu campo de acção
E toda minha cobiça.

Minha mesa no Café é aqui ♥

Kommentare

  1. Gostei do café... lá no CR, e claro, como sempre que vejo alguém cair (incluindo eu própria) lá desatei a rir :)

    AntwortenLöschen
  2. Bela simbiose de Almada com Mário de Sá-Carneiro! Adoro os modernistas!
    Beijinhos e boa semana.

    AntwortenLöschen
  3. Foi sair do teu café e sentar-me a esta mesa! :-))
    Também gostei de me sentar por aqui!

    Abraço

    AntwortenLöschen
  4. Que bela forma de convidar os seus leitores para um café, Ematejoca!
    Mais uma vez muito obrigado pela bela estória com que animou a tarde de domingo lá no On the rocks.
    Beijinho desde uma Lisboa triste e a cheirar a ressaca dolorosa...

    AntwortenLöschen
  5. Já lá fui e já comentei.
    Boa semana!

    AntwortenLöschen
  6. Uma bela poesia ilustrativa da divertida história :) Já li!

    Beijinhos e boa semana

    AntwortenLöschen
  7. Um delicioso café lá no "on the rocks", muito bem apresentado poeticamente aqui, que só agora li... :)

    Beijocas!

    AntwortenLöschen

Kommentar veröffentlichen