O Pequeno Bairro Português de Hamburgo criou a moda do "galão"

O café-pastelaria Colmeia, em Hamburgo, está na habitual azáfama da manhã. “Ein galao, bitte”, pede um dos primeiros clientes - um galão, por favor. Outro, de seguida, pede o mesmo. Um casal vem buscar sandes... e dois galões. Um croissant e um galão. Um galão grande. Um galão, e outro ainda. O som da palavra sem o “ão”, como é dita pelos alemães, começa a parecer familiar. É uma manhã normal no café Colmeia.
Atrás do balcão, Filipe Correia vai servindo as pessoas, bandeira portuguesa ao fundo. Os pais vieram para Hamburgo já há muito tempo, o pai com 13 anos, a mãe com 18, e ele já nasceu cá. Há nove anos que têm a pastelaria – mais ou menos a altura do boom das pastelaria portuguesas que com os seus galões e também com os seus pastéis de nata conquistaram os habitantes de Hamburgo, num fenómeno sem paralelo em qualquer outra cidade alemã.
O galão é "cool" em Hamburgo. Há a “modinha do galão”, diz com um tom algo depreciativo um português a viver na cidade. Tornou-se talvez um símbolo de "status", algo que faz quem tem tempo para sair de casa e demorar meia hora no café antes de ir para o trabalho, bebendo um galão – grande ou pequeno, com leite normal ou de soja – na esplanada, se o tempo ainda o permitir, com uma sandes, um croissant, ou um jornal a acompanhar.
O pastel de nata – que existe nas pastelarias portuguesas mas também em vários outros sítios na cidade – ficará para mais tarde, depois do almoço, ou ao lanche.
O galão e o pastel de nata não são as únicas marcas portuguesas na cidade hanseática. Para além de haver dezenas de pastelarias – só na zona de Schantze em alguns minutos passa-se por pelo menos três, a pastelaria Estela, a Transmontana, e a Colmeia – há outro fenónemo único: o bairro dos restaurantes portugueses.
É um pequena rua com bandeiras portuguesas (há algumas espanholas pelo meio, para chamar mais a atenção de algum alemão que não conhecesse Portugal) com restaurantes portugueses porta-sim-porta-sim. Há o Farol, a Casa Madeira, o Pescador, o D. José, o Porto... saindo da rua principal, ainda há o Cantinho do António, a Casa Benfica, a Varina, o Lusitano... Há até a Casa Franco, que é de um afegão que entretanto aprendeu português. Bem-vindos ao Kleine Portugiesenviertel, o pequeno bairro português, na Ditmar-Koel-Strasse, uma rua na zona turística perto do porto.
Sofia Rocha, de Aveiro e filha do dono da Casa Benfica, explica que a clientela dos restaurantes é sobretudo alemã, que procuram os sabores portugueses pelo exotismo. “Gostam muito de sardinhas, lulas, carne à portuguesa”, enumera Sofia, que tem o cabelo castanho apanhado com uma mola na parte de trás da cabeça, e que abana muito ligeiramente os brincos - duas grandes argolas - enquanto fala. “E Sagres. Aqui bebe-se Sagres.”
“Os alemães gostam muito dos portugueses”, diz, sublinhando: “Vê-se mesmo. Olhe por exemplo quando é a bola é uma loucura: torcem todos por Portugal.”
É uma coisa que vamos ouvindo uma e outra vez. “Os portugueses são uma comunidade muito bem vista na Alemanha”, nota também António Torres, dono do restarante Lusitano. “É o povo que está mais bem visto – depois vêm os espanhóis, italianos... e depois é por ali abaixo até aos turcos”, diz José Martins Bento, dono da Casa Madeira, antes de se envolver numa discussão com a mulher e cozinheira do restaurante, Maria Aurora dos Anjos, sobre se o restaurante se chama Casa Madeira porque o avô dele era da Madeira ou porque era madeireiro – não se há-de perceber qual a razão.

Regressar, ou ficar?
Os portugueses em Hamburgo têm, por outro lado, muitas coisas em comum com outras comunidades de emigrantes: há bailes, há comemorações de festas (Sto. António, São João, já houve uma procissão de Fátima), às vezes com artistas portugueses – “Ainda agora veio o Tony Carreira, foi uma loucura!”, diz Sofia Rocha.
“Cá há tudo português”, acrescenta a filha do dono da Casa Benfica, enumerando: “Mercado, padre, igreja – é onde fazemos a comunhão e o crisma. Há bailes, há equipas de futebol amadoras – Sporting, Porto e Benfica... Há conjuntos de música: Tu Eu e Eles, Trio Menos Um, e o Zé Carlos.”
Nos restaurantes a música que se ouve é variada (e o fado é uma excepção): na Casa Benfica é uma rádio portuguesa, no Lusitano vê-se a TVI, na pastelaria Colmeia, o som de fundo é em castelhano. Filipe queixa-se de ter pouca coisa em português. “Se a rádio portuguesa passasse musica portuguesa, eu ouvia. Mas é só musicas inglesas!”
Apesar de ter nascido em Hamburgo, Filipe pensa em regressar a Portugal – tal como a maioria dos portugueses mais velhos ou alguns dos portugueses mais novos. “Já lá devia estar!”, desabafa José Martins Bento, há mais de 30 anos em Hamburgo. “Já faltou mais”, diz Sofia Rocha com um ar esperançoso.
Quem não pensa assim é Bruno Sousa, que trabalha no restaurante A Varina, onde se ouve um fado baixinho e se consegue mesa “quase só por marcação”. “Uma pessoa chega, vive uns anos, arranja amigos, emprego...”, diz Bruno Sousa, que está em Hamburgo há apnas três anos. “Aqui há uma boa rede social: se pedermos o emprego não ficamos sem casa, temos dentista grátis, cirurgia numa semana.”
Fernanda Alves, dona da pastelaria M Portugal, que está em Hamburgo desde os dois anos – tem 43 – já não pensa regressar. “Só se tivesse muito dinheiro para ter assistência médica.”

Ao ler o artigo de Maria João Guimarães, Hamburgo no Público, recordei a minha última estadia em Hamburgo em casa da minha amiga Anya. Ela sentiu-se na obrigação de me levar a esse bairro português. Só gosto de beber galão em Portugal, embora o de Hamburgo não fosse mau de todo. Em contrapartida os pastéis de nata e os croissants eram uma vergonha.
Que mania, que os alemães têm de me levarem-me a cafés ou restaurantes portugueses. Quando visitei a Christiana em Genébra também me levou a um café português para tomar o pequeno-almoço. Aí a mesma coisa: um bom galão e péssimos pastéis de nata e croissants.
A minha filosofia é: em Roma sê romano. Quero dizer, que quando me encontro em Hamburgo, ou Genébra, ou numa outra cidade, quero frequentar os sítios típicos daí, não tendo interesse em frequentar bairros, cafés ou restaurantes portugueses.

Kommentare

  1. Compreendo essa mania... também passo por isso quando vou ao Canada. Mas para mim é uma boa notícia saber que a cultura alemã recebe influência de coisas de Portugal, nem que seja num galão ou num pastel de nata de gosto mais duvidoso que o nosso. Entristece-me que, ao contrário de outras comunidades, muitas vezes a lusitana não deixe a sua marca dentro da cultura anfitriã. Somos muitas vezes fechados sobre nós e inseguros, pelo que não conseguimos exportar o que é nosso para junto de quem acolhe.

    AntwortenLöschen
  2. Também não me passa pela cabeça ir a restaurantes ou cafés portugueses nos locais que visito: em Roma sê romano, em Hamburgo hamburquês (não sei se é assim que se diz, eheheh!), em Madrid madrileno, em Londres londrino e por aí fora.

    Mas o artigo em si tem a sua piada! :D

    Beijocas!

    AntwortenLöschen
  3. Eu por acaso vivi em Hamburgo há muito, muito tempo na década de 70. Não era propriamente um emigrante como a maioria dos tugas que lá estavam e por acaso conhecia muito bem a zona onde hoje se situa o bairro português. É com muito prazer que li esta notícia e constatei que pelo menos alguma coisa se faz de bom e que seja capaz de atrair os alemães.. nem que seja por questão de moda.Seria bem pior que a moda fosse hostilizar o tuga...

    AntwortenLöschen

Kommentar posten