como um pêro podre


As conversas na Rua dos Cafés não me trouxeram de volta as histórias e os encontros no Café "Piolho" — o meu Café na cidade invicta.
 Nem aquela história de amor no Café Vienense em Düsseldorf.  
 Nem as conversas literárias nos Cafés de Praga, de Viena ou de Paris.
 Subitamente, aparece à minha frente aquele episódio perdido no tempo, como uma sequência cinematográfica. 
A minha mãe tinha casado nesse ano. Tinha eu oito anos. O meu padrasto — a quem eu chamei pai, logo a seguir ao casamento, contra a vontade da minha mãe, que irritada me lembrou: "O teu pai encontra-se no céu" — era quase onze anos mais velho do que ela e bastante ciumento. 
 A minha mãe era uma mulher de 33 anos bela e elegante, uma miniatura de Ingrid Bergman a sueca tinha 1,80m de altura e era difícil actuar de sapatos altos, já que a maioria dos seus parceiros eram baixos. Com a excepção de Gary Cooper, que tinha 1,90m de altura e foi para ela um alívio não precisar de tirar os sapatos ao interpretar a Maria em Por quem os Sinos Dobram. Já em Casablanca, considerado como um dos melhores filmes da história do cinema americano, a Ingrid tirou os sapatos e o Humphrey subiu para cima de um banco para a poder beijar.
 Passados tantos anos já não me lembro do nome do Café, lembro-me sim, que ficava situado ao fim da Rua de Sá da Bandeira, na Baixa do Porto. Não, não era o Café "A Brasileira" que continua em frente ao teatro; era sim, um Café que ficava um pouco mais para cima e que já não existe. 
 A minha mãe ali estava. Loira e fria. O vestido plissado de gorgete roxo era lindíssimo. Os tacões altíssimos dos sapatos davam-lhe uma altura que ela não tinha. A maquiagem perfeita valorizava a sua beleza.
 Devagar, descia os quatro ou cinco degraus em direção à nossa mesa habitual, enquanto um cavalheiro de meia-idade (naquela altura, qualquer pessoa com mais de vinte anos era para mim de meia-idade) vinha em sentido contrário. Ou, mais precisamente, um cavalheiro de quarenta e poucos anos subia os mesmos degraus em direção à saída. 
Ele pousa o seu olhar na minha mãe. 
Ele pousa demoradamente o seu olhar na minha mãe. 
Então, acontece aquela cena imprevista e caricata: o cavalheiro perde o equilíbrio e cai de costas aos pés da minha mãe.
Impávida e serena, a minha mãe dirige-se à nossa mesa habitual, seguida pelo meu padrasto — roído de ciúmes — e por mim, ainda apalermada. 
Quebrei o silêncio ao acabar de beber o meu mazagran. 
Olhei para a minha mãe e disse em voz alta: 
—Mamã, aquele senhor de há bocado caíu no chão como um pêro podre!

Kommentare

  1. «A minha mãe ali estava. Loira e fria. O vestido plissado de gorgete roxo era lindíssimo. Os tacões altíssimos dos sapatos davam-lhe uma altura que ela não tinha. A maquiagem perfeita valorizava a sua beleza. »


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    1. A minha mãe sempre disse, que os homens que queriam salvar o mundo, eram os mais enfadonhos!!!

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  2. Conta-se que na maioria das cenas de Casablanca Ingrid Bergman estaria numa espécie de cova para ficar ao lado do Boggie...

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    1. A Ingrid Bergman não era a única a ter de se "encolher" para o parceiro parecer mais alto. O Joaquim de Almeida contou numa entrevista que também tiveram de lhe arranjar um banquinho, num filme em que era o mau da fita e dava um soquete em Harrisson Ford. Problema é que o outro é alto e ele baixote, para conferir realismo à coisa não podia ser um vilão de pernas curtas, que mal alcançava o nariz do outro. Ingrid Bergman tinha um pavor em beijar o Humphrey Bogart, porque ele cheirava muito mal da boca.

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  3. Então o senhor desequilibra-se, cai-lhe aos pés e sua mãe continua impávida e serena e "foi andando prá mesa"? Que falta de chá.

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    1. A bea queria que a minha mãe ajudasse a levantar o tipo?!

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  4. Há coisas que nunca entenderei. Então o homem que olha demoradamente a sua mãe, imagino que olhos nos olhos, esquece-se dos degraus, cai desamparado às pés da sua musa, e essa, como se nada fosse - o homem podia ter partido as costelas, um braço, uma perna, sei lá - segue impávida e serena, como se nada tivesse acontecido? Oi mulher, acorda para a vida, mulher...loool

    O que um homem sofre por causa de uma mulher bonita e elegante, lol

    Beijinho daqui até aí, em ti...sem máscara.

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    1. Ignorar o que aconteceu foi uma decisão inteligente da minha mãe. Eu tinha reagido da mesma maneira, ... só que até hoje, ninguém caiu aos meus pés.

      Beijoca de um Düsseldorf muito quente.

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  5. Coitado do senhor, mas ri-me muito! Porque a cena em si tem o seu quê de hilariante, sobretudo, por a tua mãe ter continuado impávida e serena. Adoro :D

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    1. A minha mãe perdeu a serenidade, no dia, em que eu lhe participei que não regressava a Portugal.

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  6. Essa queda do cavalheiro, que cai aos pés da senhora tua mãe, Teresa, não de joelhos, mas de costas, proporcionou-te um impacto tal que ainda hoje recordas o incidente com uma precisão de detalhes notável.
    Quando dela falas e referes a sua extrema beleza de mulher fria e distante, vem-me sempre à ideia o rosto da actriz Greta Garbo. :)

    Ah, o vestido plissado roxo que tua mãe usava nesse dia, não era de 'gorgete'; isso não existe.
    Era sim, de georgette. Um tecido criado pela costureira francesa Georgette de la Plante. Lembro-me de minha mãe falar muito nesse tecido, e do 'brocado' e do 'organdi'...do meu tempo era o 'tafetá' que, mais tarde, desceu de categoria e passou a ser tecido de forros de casacos de Inverno. :))

    Um abraço, amiga de longe! :)

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    1. Não sabia que 'georgette' era um tecido criado pela costureira francesa Georgette de la Plante. Eu usei o termo 'gorgete', que é um tecido fino em pregas. O 'tafetá' é um tecido muitíssimo brilhante. O 'brocado' é um tecido pesado, enquanto que o 'organdi' é demasido leve e transparente.

      A minha mãe era maravilhosa com todos os seus defeitos e virtudes ♥♥♥

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