A quinta dimensão

"Comemorar Abril agora tem que ser um novo ato de libertação cultural e política. Essa será a sua quinta dimensão: a capacidade de renascer da sua própria liberdade." 


1) Não sei o que escrever sobre o 25 de Abril. Tudo está dito e está sempre tudo por dizer.  Para mim começou quando o vizinho,  um oficial do exército  argelino,  foi bater-me  à porta, às sete da manhã. Havia um telefonema para mim (nós não tínhamos telefone). Era o Aquino de Bragança: "Lisboa está tomada".  E eu a responder: "Isso foi o Afonso Henriques". Mas ele insistiu: "Os tanques estão na rua, desta vez é a sério". Fui avisar a Mafalda, que já estava a tratar do Francisco, nosso filho, então com oito meses. Havia em nós  um misto de entusiasmo e de dúvida. Quem tinha mandado os tanques para a rua?  Golpe de direita? Ou outra coisa?

 Corremos para a sede da Frente Patriótica, onde já estava o Piteira Santos.  Falou-se para Paris, tentou-se Lisboa, mas só muito mais tarde se conseguiria. A rádio argelina dava notícias, mas  não acrescentava grande coisa. Idem com a rádio francesa. Passámos a manhã  ao telefone e junto à rádio. Ao princípio da tarde, fomos convidados pela agência France Press, de onde acompanhámos os acontecimentos. Notícias de povo ao lado dos revoltosos. Bom sinal. Quase ao fim da tarde, sintonizei a Emissora Nacional. Transmitia canções do Zeca Afonso  e do Adriano, algumas com letra minha. Kaúlza  de Arriaga não era com certeza. E vimos,  então, pela televisão, as primeiras imagens: os tanques no Largo do Carmo, o povo a apoiar, cravos nas espingardas. A detenção de Marcelo Caetano, a queda do regime, a primeira conferência  de imprensa da Junta de Salvação Nacional, presidida por Spínola, o nome de quem se falava e, de certo modo, por quem se esperava. Não sabíamos ainda  quem era Otelo, nem Salgueiro Maia.

 Começámos  a intuir que aquele golpe militar se poderia transformar em revolução, a Revolução  que tínhamos sonhado, pela qual  tantos resistentes tinham lutado e que estava a ser feita  por militares, gente  sem rosto e sem nome, à exceção de Spínola, que parecia ser o chefe, mas, afinal, talvez não fosse. Decidimos regressar. Foi uma semana de alegria e agitação, momentos irrepetíveis. Pela primeira vez, em muitos anos, conseguimos falar ao telefone com as famílias. Toda a gente chorava. Até o Piteira Santos.

 Fomos recebidos pelo Presidente (da República da Argélia) Boumédiène.  Partimos dia 30. A minha mãe telefonara a pedir para entrar em contacto com o Galvão de Melo, com quem eu conspirara em Angola. Ele afirmou, de modo misterioso e ambíguo, que era melhor não entrarmos no dia 1 de Maio, dado que podia haver confrontos em Lisboa e a nossa presença não seria bem vista por alguns membros  da Junta de Salvação Nacional. Nunca logrei esclarecer se Galvão de Melo falou por si próprio ou por outros. Seja como for, nós não queríamos ser um fator de perturbação. A Stella (mulher de Piteira Santos), a Mafalda e o Francisco (com o seu passaporte argelino) partiram de comboio, de Madrid para Lisboa. Havia gente à espera no aeroporto, mas o  Piteira e eu ficámos em Madrid.

 Perdemos o 1º de Maio e isso é irrepetível. Voltámos no dia 2. Havia muitos amigos à espera, políticos, poetas, gente anónima, as famílias que  há muito não abraçávamos. O Lopes Cardoso e o Varela Gomes conduziram-nos à Junta de Salvação Nacional e então, por acaso, ou talvez não, encontrei-me à porta com o meu amigo Ernesto Melo Antunes, que estava regressado dos Açores e sempre  tinha previsto que o regime  seria derrubado por militares. Eu trazia uma carta do moçambicano Jacinto Veloso para Otelo. Entreguei-lha em casa de amigos. Nessa altura, o nome dele  ainda não era muito conhecido. Não se sabia quem ele era, ele próprio ainda não sabia que já tinha entrado na História.  Desses primeiros dias recordo a festa, uma espécie  de plenitude, um estado de  graça. E também uma irresistível subversão que mudava os hábitos, a linguagem, os comportamentos.

 Todos eram  revolucionários, todos tinham feito a sua opção de classe. Lembrei-me do que tinha dito Garrett, depois da vitória da  Revolução Liberal:  os revolucionários que a tinham dirigido pareciam conservadores, os que pouco ou nada tinham  feito arvoravam-se em mais liberais do que os liberais. Algo de parecido estava a acontecer. Talvez nunca fosse possível regressar de um tão longo exílio. Será que, afinal, somos reacionários?, perguntou  Piteira Santos perante essa tão grande e súbita erupção de revolucionários.  O certo é que estávamos de novo em casa, na Pátria libertada, a viver um momento único e irrepetível, como se a História tivesse acelerado e irrompesse  dentro de cada um de nós, para mudar a vida  e abrir um horizonte onde tudo parecia ser possível.  Isso foi o essencial dos primeiros dias da Revolução de Abril, cuja primeira dimensão é a liberdade.

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Kommentare

  1. Sou particularmente sensível à dimensão poética da quinta dimensão, às outras não!

    É que a quinta dimensão, como sabe, é caleidoscópica...

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    1. A dimensão poética da quinta dimensão é a verdadeira, camarada Rogério, as outras não o são!!

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  2. Meu conterrâneo, foi tratado abaixo de cão pelo seu partido com a rábula da escolha de Mário Soares e, depois, quando o lançaram às feras já totalmente descredibilizado.
    E ainda perguntam como é que Cavaco foi parar a Belém?
    Quase o empurraram para lá!

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  3. O Mário Soares nunca quis homens de valor ao seu lado para não lhe ofuscarem o brilho que ele nunca teve.

    O governo está a fazer um mau trabalho, mas o partido socialista é o responsável pela miséria actual em Portugal.

    É bom encontrar alguém com a minha visão política, Pedro!

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  4. "Comemorar Abril agora tem que ser um novo acto de libertação cultural e política. Essa será a sua quinta dimensão: a capacidade de renascer da sua própria liberdade"
    Está criado um novo mito na história de Portugal. Através deles temos vivido alegremente: os navegadores, V Império, o sebastianismo, o republicanismo, o salazarismo e agora o 25 de Abril.
    Cumprimentos.

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  5. ...e continuamos na mesma como povo. Pobre económica e culturalmente, subjugado por interesses nacionais e estrangeiros e acreditando nos amanhãs que cantam, presos e educados à nossa história "gloriosa". Para quando o tal renascimento? Não é com certeza com o 25 de Abril.

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    1. O seu depoimento sobre o mito Revolução de Abril tem clareza e revela inteligência, Carlos II.

      Abraço 25 de Abril, sem o cravo vermelho ao peito e a ingénuidade de uma criança!

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