Na Sopa de Carrol

(com Unsuk China)

A sopa de Carrol

leva de tudo
um pouco:
leva bichos
leva plantas
leva membros
decepados
pernas
braços
variados
e muito bem
temperados
com pòzinhos
de espirar
chávenas
e chaleiras
bolinhos
a fumegar
e cabeças
de meninas
onde os sonhos
são plantados
as meninas
rodopiam
as meninas
dizem 
não
e arrancam
os vestidos
não sabem a côr
das plantas
não sabem
os segredos
não conhecem
os destinos
e muito menos
os medos
o espaço é negro
e profundo
um poço feito
de pedra
com um portão
pequenino
a chave não está 
na sopa
está no tempo
e o tempo é
infinito
e o infinito
o que é
não há resposta
certeira
por muito que
não se queira
as respostas são
iguais
em toda a mente
matreira
tão iguais
que tanto faz
e a chave
não serve assim
esta sopa
é brincadeira
não a podemos
comer
sopa de indigestão
quem cozinha
é a rainha
atirou dados
ao chão
escondeu cartas
no cabelo
em forma de
coração
e na mão ergue
um flamingo
com o sorriso
do gato
Carrol-coelho
avisou
o tempo
está a contar
o que ele conta
não sabemos
nem dá para
adivinhar
podemos imaginar
grita
o homem-escuridão
Alice fica
sem fala
em busca de
solução
e soluça
mas em vão

in Outonais (poemas 2005 | 2010)
© Yvette K. Centeno

Kommentare

  1. Um poema intenso, que nos envolve com mestria!

    r: Sou suspeita, porque adoro, mas aconselho a provar :)

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    1. Descobri há pouco tempo a poesia de Yvette K. Centeno e gostei.

      Descobrir o sabor de um fruto desconhecido também me dá prazer.

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  2. Não consigo publicar comentar no ematejoca, não sei porquê, já foram várias dezenas tentativas em post anteriores e hoje não tive melhor sorte. Pede para abrir a conta, depois na republicação pede códigos como não robot e assim sucessivamente.

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    1. Não faço a mínima ideia do que se passa com os meus blogues, Carlos, apenas sei que depois do escândalo do Facebook, a Alemanha tomou tremendas precauções.

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  3. Este texto "Não consigo publicar comentar no ematejoca, não sei porquê, já foram várias dezenas tentativas em post anteriores e hoje não tive melhor sorte. Pede para abrir a conta, depois na republicação pede códigos como não robot e assim sucessivamente."
    É meu Carlos Faria, só consegui publicar como anónimo e não foi fácil

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    1. Pedi ajuda a um amigo para tentar encontrar o problema, embora ele seja português, e não esteja visualizando as medidas que a Alemanha tomou contra o Google. Vamos lá ver o que ele nos diz sobre as dificuldades de acesso ao "ematejoca azul".

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  4. Não conhecia a poetisa/escritora.
    Tenho que ler o poema de novo. Acho-o um pouco “convoluted” e tétrico. Parece mais uma poção mágica que os miúdos inventam durante o Halloween – Dia das Bruxas.
    Estou com dificuldade na minha interpretação conotativa, na compreensão da dramaticidade do poema.

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  5. Ao ler este, algo estranho e muito belo, poema desta maravilhosa Poetisa portuguesa, não pude deixar de pensar na sua mais recente afirmação dada numa entrevista, quase arrancada a ferros:

    "Mesmo emocionada, não tenho lugar para a lamechice"

    Sabes que a comparo um pouco a ti, Teresa? :-)

    Abraço. Feliz Setembro!

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    1. Pensei que o meu comentário tivesse seguido, mas não seguiu!
      Nesse comentário estava a pedir à minha querida amiga Janita que me explicasse o sentido deste poema porque também não compreendo como pode ser estranho e belo ao mesmo tempo.
      Fazes-me esse favor?! : ))

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    2. Querida Catarina,
      não fora o aviso da Teresa - que só agora li - e talvez não soubesse deste teu pedido.
      Receio que não fique totalmente satisfeita a tua curiosidade, porque aquilo que uma pessoa sente ao ler determinado poema, ou texto, outra, por motivos vários, que podem ir da formação cultural/ideológica à própria maneira de ser, não compreender ou, no pior dos casos, não aceitar.
      Ora bem, essa dissonância - a teu ver - entre o belo e o estranho, para mim, é perfeitamente aceitável. Estranho, porque este poema, claramente um poema inspirado na vivência infantil, onde o sonho e o faz-de-conta é realçado, me fez pensar na história de Alice no País das Maravilhas. Um género de poema que eu não fazia ideia que a Poetisa escrevesse. O belo, é tão somente pelo facto de me ter agradado imenso essa faceta poética de Yvette Centeno. :)
      Sinceramente, Catarina, se ficaste na mesma , a culpa só pode ser minha e da minha incapacidade de me expressar com mais clareza.
      Qualquer coisinha, cá estou...:))

      Beijinhos a ambas!

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    3. : ) Obrigada, Janita. Explicaste-te com muita clareza.

      Não conhecendo a poetisa, mas deduzindo que seria conhecida e apreciada, já que foi mencionada no blogue da Teresa, fiquei um pouco surpresa com o tema do poema (que tb me fez lembrar a querida Alice!), e também as crianças das escolas elementares que imaginam as poções mais incríveis que se possa imaginar!

      Não é surpreendente que a poesia nos proporcina a capacidade infinita de interpretação. E depois há a sensibilidade de cada um. A minha sensibilidade para poesia deixa muito a desejar... embora diga (e quantas vezes já repeti) que o meu primeiro “poema” foi em alemão!!! Um poema muito simples dedicado ao amor, pois claro!!...

      Obrigada Teresa e Janita!

      : )

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  6. r: Sim, é o Jão
    A parte do "meter medo" é relativa, mas a pessoa de cabelo comprido é o Diogo
    Lamento que só o tenhas conhecido nessa altura, porque esse momento, para além de não o definir, não belisca o seu percurso fantástico. Agora, claro que sou suspeita, porque o admiro imenso.
    Não acho que o Salvador Sobral seja um stupid boy. Além disso, ele e o Diogo têm estilos completamente distintos. Para mim, a qualidade é inegável em ambos. Mas hei-de preferir sempre o Diogo

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  7. Sobre as "dificuldades " em comentar ou não neste post (e Blog) estou a fazê-lo tal como te tentei explicar por mail.

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  8. Entrando apenas através do link do blog , estou a fazer a experiência agora .
    Vou tentar deixar este comentário e ver se me é pedida alguma coisa.

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