HISTÓRIA ANTIGA

Era uma vez, lá na Judeia, um rei.
Feio bicho, de resto:
Uma cara de burro sem cabresto
E duas grandes tranças.
A gente olhava, reparava, e via
Que naquela figura não havia
Olhos de quem gosta de crianças.

E, na verdade, assim acontecia.
Porque um dia,
O malvado,
Só por ter o poder de quem é rei
Por não ter coração,
Sem mais nem menos,
Mandou matar quantos eram pequenos
Nas cidades e aldeias da Nação.

Mas,
Por acaso ou milagre, aconteceu
Que, num burrinho pela areia fora,
Fugiu
Daquelas mãos de sangue um pequenito
Que o vivo sol da vida acarinhou;
E bastou
Esse palmo de sonho
Para encher este mundo de alegria;
Para crescer, ser Deus;
E meter no inferno o tal das tranças,
Só porque ele não gostava de crianças.

Miguel Torga, Antologia Poética
Coimbra, Ed. do Autor, 1981

Kommentare

  1. Muito bonito.
    Feliz Natal, Teresa, beijinhos

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    1. Miguel Torga, o transmontano, é um dos meus autores preferidos.
      Continuação de um santo Natal também para ti, papoila 🎄

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  2. Sempre achei este poema de Natal muito bonito, tem um humor terno que nos conquista.

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  3. Antworten
    1. Agradeço e retribuo os votos de Feliz Ano Novo, Catarina.

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