Sonntag, 8. Mai 2016

Beijo de Mãe


    Depois de tudo, de todos os anos e de todas as vicissitudes da vida, ainda conservava a caixa, memória e espaço inócuo, estática simplesmente no tempo. Setenta e muitos anos haviam já passado! O tempo tinha exercido sobre ele o efeito que faz uma gota de água repetidamente numa rocha – e ele não tinha a porosidade dura da pedra… 
    Pois os lustros foram passando, lentamente, e, com o decorrer do tempo, cada vez mais alheio, a vida continuou. Mais algum pouco que meio século e o momento era exacto: sobrara apenas, e já muito, a caixa com o ás de copas gravado no metal da tampa. Mais que envelhecido, apodrecido, mas tendo em si a nostalgia da vida, pegava, trémulo, na caixa selada por 
fita-cola preta.
    A sua mulher, vaga memória, permanecia sempre nos seus gestos como parte de si, mas desapercebida. Os filhos, todos marcados pela morte, estavam enterrados no fundo da sua alma. Não estavam mortos para ele, mas sim adormecidos nos confins da eternidade. 
    Um dia pedira a sua mãe afincadamente que lhe desse um beijo no tempo. A mãe, surpreendida, dera-lhe um beijo na testa, um beijo no presente. Não, não! Queria um beijo daqui a muitos anos, quando a sua mãe já não lho pudesse fisicamente dar. 
— Mãe, dá-me um beijo no tempo, daqui a muitos anos! Mãe, dás? 
    Um dia depois, lá se decidiu e deu um beijo no filho do futuro, fechando a caixa logo de seguida para que este não se perdesse no ar, no tempo do presente. 
     Era assim que o seu filho desejava.  
     Esse beijo na caixa fora dado com a mesma convicção com que todos os dias, antes de o filho adormecer, visitava o seu leito e lhe marcava a testa com esse cunho do amor. Ele, envolto em lençóis, dormia toda a noite com a presença da mãe na testa, embalando-o como se ele ainda fosse um bebé. 
    Os anos trataram de fazer com que a mãe não pudesse fisicamente dar mais nenhum beijo. Ele, por sua vez, dera muitos beijos aos seus filhos, embalando-os, porventura, como se eles fossem ainda bebés, mas nunca com a mesma verdade de amor com que sua mãe lhe dava, há já muito tempo, beijos no leito. 
    Nesse dia estava sozinho, e já parco de vida, esperando a morte. Era de noite e só uma lâmpada luzia em toda a casa, envolta numa camada de pó. O filho, que já fora pai e marido e que, agora, não era nada, sentou-se na cama e tirou vagarosamente os chinelos, alinhando-os. Depois, enrolando-se, deitou-se em lençóis, como se fosse um bebé. A caixa lá estava. Com as suas mãos finas, onde se viam todas as veias, raspou a fita-cola preta para a arrancar com lentidão. 
 Recebeu o beijo de sua mãe. 
    No dia seguinte, quando a empregada entrou no quarto, encontrou-o morto ao lado de uma caixa aberta, mas com um sorriso de quem está só a dormir, embalado pelo beijo de sua mãe. 

Kommentare:

  1. Não queria chorar, Ematejoca, juro que não queria chorar!
    Mas choro; e tive que esperar um bom bocado até conseguir escrever!

    Este final de vida até foi um final feliz, mas a razão principal do meu pranto, foi a recordação dos beijos! Não dos que recebi em criança, já que ninguém na minha família, tinha o hábito de beijar e abraçar. Antigamente o contacto físico era quase como algo impróprio.

    A lembrança dos beijos que me fizeram chorar, foi a dos que dei ao meu primeiro neto!
    Criei dois filhos, sempre afobada em trabalho e canseiras, dei-lhe colo, abraços, beijos e todo o carinho que tinha para dar.
    O tempo foi passando e a manifestação de afectos rareando. Havia abraços e beijos, mas já nada como quando eram pequenos.

    Quando nasceu o meu neto e senti de novo toda a emoção de ter um bebé nos braços, foi uma dádiva do Céu. tanto mais que fui eu que o criei dos 4 meses aos 4 anos.
    Ah, os beijos que eu dei naquelas bochechas rosadas! Costumo dizer que lhe dei muito de mim, mas o bem que ele me fez foi infinitamente superior ao que dei.
    E, foram esses, os últimos beijos carinhosos da minha vida e serão o melhor que levarei quando for.

    E, agora, que já me perdi, a falar de uns beijos que não são os teus, já não posso voltar atrás. Desculpa, este meu devaneio. A culpa é do valor que os beijos têm, na vida de quem precisa de um BEIJO PARA O FUTURO.
    Não os guardei numa caixa, mas acho que o meu coração é um cofre sagrado, onde levarei todos os beijos que me deram e eu dei!
    Também quero partir com um sorriso igual ao do homem que guardou o beijo da sua Mãe!

    Obrigada, Teresa!

    Beijinhos de Amizade.

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    1. Meu Deus, Janita, uma lufada de expressiva manifestação de amor que se afirma em cada momento. Um texto literário primoroso e suave, que não pode ficar aqui esquecido.

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  2. Que bonito, Teresa!
    Guarda um beijinho meu.
    Adorei.

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    1. O futuro de Portugal está nas mãos de jovens com o talento e o génio de um Afonso Reis Cabral.

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  3. É uma história e está contada. Os beijos fazem falta em qualquer idade, mas não se morre sem eles. É bom que os tenhamos ou que os tenhamos tido. Mas não sei se são eles o que mais recordamos nas pessoas que amamos. As pessoas que estão sempre comigo não eram beijoqueiras e nem as lembro menos por isso.

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    1. O beijo é aqui uma metáfora para expressar um amor que se afirma em cada momento. Um conto primoroso que emociona os espíritos mais esclarecidos.

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  4. Um beijo cheio de simbolismo, esse guardado assim numa pequena caixa. :)

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    1. Um beijo muito humano, embora cheio de simbolismo.

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  5. Uma bonita homenagem no Dia da Mãe (também em Macau).

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    1. Uma bonita homenagem no Dia da Mãe pela beleza literária e pela beleza de conteúdo do seu texto (também na Alemanha).

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  6. ~~~
    Grata pela partilha deste conto terno e lindo.

    ~~~ Beijinhos, querida amiga. ~~~
    ~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~~

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    1. Lindíssimo.

      Beijinhos, Majo, é sempre uma alegria encontrar-te por aqui.

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A minha alegria é o aroma de tangerina nos dedos

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Düsseldorf, Nordrhein-Westfalen, Germany
Lamego foi a cidade que me viu nascer. Porto foi a cidade que me viu crescer. Düsseldorf é a cidade que está a ver-me envelhecer.

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I – AVÉ-MARIAS

Nas nossas ruas, ao anoitecer,
Há tal soturnidade, há tal melancolia,
Que as sombras, o bulício, o Tejo, a maresia
Despertam-me um desejo absurdo de sofrer.

O céu parece baixo e de neblina,
O gás extravasado enjoa-me, perturba;
E os edifícios, com as chaminés, e a turba
Toldam-se duma cor monótona e londrina.

Batem os carros d'aluguer, ao fundo,
Levando à via férrea os que se vão. Felizes!
Ocorrem-me em revista exposições, países:
Madrid, Paris, Berlim, S. Petersburgo, o mundo!

Semelham-se a gaiolas, com viveiros,
As edificações somente emadeiradas:
Como morcegos, ao cair das badaladas,
Saltam de viga em viga os mestres carpinteiros.

Voltam os calafates, aos magotes,
De jaquetão ao ombro, enfarruscados, secos;
Embrenho-me, a cismar, por boqueirões, por becos,
Ou erro pelos cais a que se atracam botes.

E evoco, então, as crónicas navais:
Mouros, baixéis, heróis, tudo ressuscitado!
Luta Camões no mar, salvando um livro a nado!
Singram soberbas naus que eu não verei jamais!

E o fim da tarde inspira-me; e incomoda!
De um couraçado inglês vogam os escaleres;
E em terra num tinir de louças e talheres
Flamejam, ao jantar, alguns hotéis da moda.

Num trem de praça arengam dois dentistas;
Um trôpego arlequim braceja numas andas;
Os querubins do lar flutuam nas varandas;
Às portas, em cabelo, enfadam-se os lojistas!

Vazam-se os arsenais e as oficinas;
Reluz, viscoso, o rio, apressam-se as obreiras;
E num cardume negro, hercúleas, galhofeiras,
Correndo com firmeza, assomam as varinas.

Vem sacudindo as ancas opulentas!
Seus troncos varonis recordam-me pilastras;
E algumas, à cabeça, embalam nas canastras
Os filhos que depois naufragam nas tormentas.

Descalças! Nas descargas de carvão,
Desde manhã à noite, a bordo das fragatas;
E apinham-se num bairro aonde miam gatas,
E o peixe podre gera focos de infecção!

Cesário Verde

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É o nome de uma das mais emblemáticas personagens de Shakespeare: Próspero, o mago de "A Tempestade". Muitos viram nele a encarnação dramática do Bardo de Stratford-upon-Avon e a metáfora do próprio Teatro. Próspero é também o nome de um Cartão que o TNSJ concebeu para servir de presente de Natal ou aniversário.
Entre os benefícios concedidos por este Próspero, contam-se entradas duplas para espetáculos da programação TNSJ, descontos especiais em publicações, e convites para ensaios abertos e actividades paralelas.
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Deitar cedo e cedo erguer, dá saúde e faz crescer!

Quero separar-me de tudo aquilo, que não preciso. Só quem larga, tem as mãos livres!

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"O acaso faz com que essas duas
Que a sorte sempre separou
Se cruzem pela mesma rua
Olhando-se com a mesma dor".
Chico Buarque, "Umas e Outrass"


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para brincar comigo,
um navio para viajar,
um jardim para brincar,
uma escola para levar
debaixo do braço.

If I should learn, in some quite casual way
That you were gone, not to return again -
… I should but watch the station lights rush by
With a more careful interest on my face.

Edna St. Vicent Millay

A verdadeira viagem de descoberta consiste não em ver novas paisagens, mas em vê-las com novos olhos.

Marcel Proust

  • Große Bücher haben viele Kerne. Aber wenn Orhan Pamuk noch irgendetwas aus dieser Zeit besitzt, vielleicht ein Teeglas, dessen Rand sich noch immer an die süßen Lippen und den kleinen Mund der Schwarzen Rose erinnern kann, als sei er gestern davon berührt worden, dann werden wir dieses Glas eines Tages im Museum der Unschuld sehen und uns an die Zauberworte erinnern, die sein Schlaf geboren hat.
O caminho para todas as coisas grandiosas passa pelo silêncio.

Friedrich Nietzsche

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Demasiada enamorada para pensar em Deus
Demasiada ocupada para pensar em Deus
Demasiada cansada para pensar em Deus
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Like sands thru the hour glass so are the days of our lives.

Nada te perturbe,
Nada te espante,
Tudo passa,
Deus não muda,
A paciência tudo alcança;
Quem a Deus tem
Nada lhe falta:
Só Deus basta.

Eleva o pensamento,
Ao céu sobe,
Por nada te angusties,
Nada te perturbe.

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