O meu nome é Pedro. Sou gay. Também sou vegetariano.

Acontece que o meu pai é talhante. Também é caçador em horas vagas e um pouco homofóbico quando está para aí virado. O meu pai torneia a crise no Médio Oriente com a opinião firme no único copo de vinho tinto que bebe ao jantar com a mesma certeza que afirma ser o Benfica o glorioso ou a Terra redonda.
Muita gente considera hilariante o facto de eu não comer carne quando é a vendê-la que o meu pai ganha a vida. Alguns destilam neste facto um primário exemplo de revelia Freudiana, enquanto outros apenas vêm uma decisão economicamente infeliz, pois tomara a muito bolso queixoso ter boa carne à mesa, e ainda por cima sem por ela ter de pagar um tusto.
Mas pausemos aqui para divergir um pouco.
Nos primeiros tropeções do século passado, Ricardo Reis observa gentes em trânsito sobre ombros humildes atravessando secas as águas do Cais do Sodré. Intactas e enxutas vemos as peúgas abastadas. Oportunidade perdida. Roupa sem mácula. Na sombra ressuscitada de Reis, Saramago acolhe uma metáfora curiosa. Com ou sem intenção, Saramago toca um descontínuo metafórico universalmente sentido: o vazio entre aquilo que nos permitimos sentir e o quanto crescemos com base nas nossas decisões. Pelo menos disso me lembro d’O Ano da Morte.
Este eu nada metafórico que aqui escreve compreende todo esse espaço. Por vezes sinto que esta amplitude, uma ligeira e terna plenitude de infinitas hipóteses num sopro só meu, é nada mais que uma imensidão que a minha mente não consegue comportar. Demasiadas variáveis, demasiados passos, demasiados resultados possíveis. É um exercício estranho e remoto, esta existência na estatística do prévio: aconteceu assim, pode ser que resulte ali. Nós somos aquilo que fazemos, aquilo que sentimos e aquilo que lembramos. No entanto, o que importa nas decisões arriscadas que tomamos é aquilo que escolhemos com elas aprender. Esta teia de fazer e sentir e pensar é a filigrana que compõe os cantos mais íntimos da nossa identidade. Nós somos as histórias que contamos a nós próprios, e o que mais importa neste espaço é aquilo que acreditamos ser a verdade ou a ficção das nossas narrativas pessoais.
Este espaço de decisão pode parecer aleatório, mas raramente o é.
Voltando ao meu pai e à sua descendência improvável.
Não escolhi ser gay da mesma forma que não escolhi não gostar de figos, desportos de equipa ou do cheiro de caracóis quando cozidos. No entanto, escolhi ser vegetariano, não sem a previsível dose de condescendência parental. Nenhuma destas variáveis é mais válida que a outra em situar, ponto a ponto, a geografia mental e a taxonomia comportamental de Pedro Ferreira. O que importa é a forma como Pedro Ferreira reconhece Pedro Ferreira quando se olha ao espelho.
Aquilo que os outros vêm e experienciam enquanto pessoa e entidade autónoma e externa a elas próprias – uma criatura que age e pensa e fala como Pedro Ferreira e que, logo, deverá ser Pedro Ferreira – em pouco delas depende. Pelo menos naquilo que verdadeiramente importa.
Da mesma forma, escrever estas linhas a dez mil metros de altitude pouco me distancia das variadas partículas elementares que lá em baixo se movem e impactam as minhas vontades. Estas asas provisórias que de momento tenho não batem para longe os dissabores e desamores que fazem da minha vida um contínuo de histórias ao invés de um monólogo de nadas. São asas que me levam de capítulo em capítulo, puxando para trás de mim ventos e desejos, arrastandome, com ou sem querer, para novas entrelinhas e novas expectativas. Deixo amores e projetos numa outra costa enquanto sonho as cores e sílabas de futuras narrativas.
O problema, a existir, mora frequentemente no desespero branco e ofuscante com que vemos os picos isolados das montanhas que somos, pensando-nos seguros da nossa distância aos outros. Vemos intimações de solidão no fluxo constante de tudo aquilo que está lá fora, e esquecemo-nos que somos gotas desse mesmo rio de experiências e vidas. O que importa é saber que estamos tão isolados quanto nos permitimos estar.
Do muito que sou, pouco o devo apenas a mim próprio. No entanto, essa parte de mim à qual chamo volição e vontade acaba por servir tanto de provável como necessário juiz e efetor daquilo que me proponho viver. Tão pouco me posso moldar àquilo que o meu pai queria e esperava de mim quanto posso ou quero aprender a gostar de futebol – ainda sonho encontrar o amor da minha vida como aspiro aprender Grego antigo ou a tocar a suite n.1 em G maior BWV 1007 para violoncelo de Johann Sebastian Bach.
Voltando, então, a essa forma peculiar de carrego, como nos levantam os outros e como beneficiamos nós desse suporte? Argumento que aquilo que verdadeiramente importa não se fica pela negação do apoio, da interacção, da negociação daquilo que queremos ser face a e em resposta aos outros, mas pela irredutível fé na nossa capacidade de nos definirmos. Se sou um rapaz fatalmente desastrado, ocasionalmente meigo, tragicamente romântico, irrevogavelmente cerebral e atreito a adjetivação e verborreia, sou-o porque o escolho ser. Poderia ser apenas estranho, mas escolho ser fortuitamente estranho, quiçá até perfeitamente usual.
O que importa é que o Pedro Ferreira que é filho de um talhante (o qual Pedro muito ama, mesmo sendo tão carnívoro quanto um Católico no primeiro dia fora da quaresma), que é vegetariano, neurocientista em formação ou alma profundamente anacrónica, é apenas uma impressão digital no livro das faces do infinito catálogo existencial que é este pequeno grande mundo. Esta identidade é, pela virtude do ipso facto que carrega, uma pegada única com direito a selo de autenticidade. E como Ricardo Reis, Pedro Ferreira gosta de ficar perto do rio, lá para baixo, porque mesmo não se lembrando do hotel (o próximo destino), a rua sabe onde é (qualquer uma em que não olhe para trás), porque vive em Lisboa (onde mora o coração) e é Português. Porque Saramago não se importava ser parafraseado. É isso que importa.

Pedro Galvão Ferreira

Kommentare

  1. Este homem, sabe, exactamente o que é. Sabe, exactamente, o que o pai foi. Sabe, quase exactamente, o que Saramago escreveu... Só não sabe a utilidade de tudo isso.

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    1. A utilidade de tudo isso, Rogério, é a forma como Pedro Ferreira reconhece Pedro Ferreira quando se olha ao espelho.

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  2. Que lindo texto! Muito sensível, muito conhecedor de si, muito culto. Belo texto. Mas não sei quem é esse Pedro e gostava...

    Beijinhos e boas leituras!

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    1. Arlanza Maria Pina Gouvea Crespo, Carolina Dias Capelo Garcia, Maria Elvira Nobre Romão Ferreira Soares, Luis Filipe Amorim de Campos Carvalho, Pedro Nuno Galvão Ferreira e Ana Teresa Soares Gomes
      escreveram para a iniciativa O QUE IMPORTA 2014.

      O que importa é aquilo que fazemos, aquilo que sentimos e aquilo que lembramos. No entanto, Pedro Nuno Galvão Ferreira diz-nos o que importa nas decisões, e essa foi a razão porque escolhi este texto.

      Beijinhos da amiga que sempre tenta aceitar as decisões dos outros!

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  3. Além da subtileza e profundidade dos dois textos o que mais admiro é a capacidade de alongamento e explanação de sentimentos!
    Sou totalmente incapaz de ir além...


    Abraço

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    1. A que DOIS textos te estás a referir, Rosa dos Ventos?

      O texto do Pedro Nuno Galvão Ferreira é longo, bem elaborado, súbtil e profundo.

      Penso ainda publicar aqui textos de outros concorrentes desta interessante iniciativa "O QUE IMPORTA 2014".
      Para a próxima vez, vai ser o texto de uma mulher.

      Abraço da amiga de longe e de perto!

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  4. O texto é excelente e aplaudo a sua escolha, Ematejoca, mas não posso deixar de sublinhar o comentário do Rogério que subscrevo...

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    1. Pedro Nuno Galvão Ferreira ainda é muito jovem para saber ao certo a utilidade do seu conhecimento sobre o pai dele, assim como a utilidade de ter lido a obra de José Saramago... mas já tomou a decisão de a descobrir e encontra-se já no bom caminho.

      O comentário do nosso amigo Rogério também é excelente e obriga-nos a reflectir de novo sobre este texto.

      Li que o Carlos vai a caminho da nossa querida cidade invicta, lembre-se da amiga de longe que morre de saudades, Teresa

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  5. ~ ~ ~ Um agradável texto, de elevada qualidade.

    ~ ~ Uma dissertação e paráfrase inteligente e muito interessante.

    ~ ~ ~ Quero voltar a ter notícias do autor. ~ ~ ~

    ~ ~ ~ ~ ~ Beijinhos. ~ ~ ~ ~ ~

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  6. Gostei de ler, acho o texto muito bem escrito e esperemos que , com o avançar da idade (e, particularmente, da maturidade), Pedro consiga descobrir o qe ainda não descobriu.

    Obrigada por estes agradáveis momentos e te abraço

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  7. "Senti" dois textos porque considerei um registo diferente a partir de "Este eu nada metafórico que aqui escreve..."
    Tornei o texto ainda mais complexo, com uma espécie de desdobramento de alguém já desdobrado! :)

    Abraço

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