amores desencontrados

Quero participar no desafio de verão do Carlos Barbosa de Oliveira no crónicas on the rocks com o tema —  não canções de amor? — porém não é assim tão fácil lembrar-me de uma canção de amor enterrada no verão dos tempos passados.

 
— Teresinha, hoje há bailarico em casa do Manuel e o Tony quer que tu vás com ele. Veste o vestido azul, porque quando usas calças ou calções pareces um rapazinho de doze anos.
— Um rapazinho com esta cabeleira? murmurei mal humorada.
— Está bem, levo o vestido azul que a tia me ofereceu.

Tinha nessa altura 15 anos. e ficava piúrsa, quando me davam doze anos. O que mais me irritava, era que o Manuel — 10 anos mais velho do que eu, e por quem eu tinha um fraquinho — me tratasse como se eu fosse uma criança ou como se eu fosse um boneco de porcelana.
Tony era o meu primo — mais velho do que eu seis anos — que eu considerava o maior imbecil à face da terra.

A Casa da Torre ficava a uns 2km da aldeia, onde o Manuel tinha a casa de verão. Depois do jantar lá nos pusemos a caminho. Quando chegamos, cobertos de poeira, já a festa no jardim estava no auge.
O Manuel dançava muito agarradinho à Zu, uma mulher de 45 anos, divorciada, com três filhas, a mais velha da minha idade.
O meu primo apressou-se a convidar a Dinah — a prima do Manuel — para dançar. Enquanto que eu me escondia do João — o meu único pretendente — para evitar que ele me viesse convidar.
O Filipe — um amigo do meu primo que estava a passar férias connosco na Assafora — antecipou-se na altura em
que começou a tocar Let's Twist Again.
Eu dançava muito mal, mas o Filipe dançava muito pior.
Numa reviravolta mais ousada, arremassei o Filipe contra um muro, e o infeliz ficou com as costas todas ensanguentadas.
O meu primo jurou nunca mais me levar com ele, mas não cumpriu a ameaça.
A minha tia não ficou preocupada com as costas do Filipe, mas sim, com o acontecimento em si, querendo saber o que me levou a proceder de uma forma tão violenta.
Eliminei as suas dúvidas sobre o comportamento do Filipe, alegando a minha falta de talento para a dança. Escondi-lhe,
no entanto, que era ao Manuel e à Zu que eu tinha vontade de atirar contra o muro.

Dois anos mais tarde, quando o Manuel me pediu em casamento, já eu não estava interessada; ano e meio depois encontrava-me em Londres a dançar nas festas mais loucas da minha vida.

Kommentare

  1. E parece que resulta: atirar outros contra o muro, parece que suscita paixões avassaladoras, mesmo a quem não está nem aí! :)))

    Mas gostei da tua história, de amores desencontrados!

    Beijocas e bons sonhos!

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    1. Obrigada por gostares da minha história, Teté, que está tão longe daquilo que o Carlos pretendia, mas eu nunca gostei de músicas românticas.

      Se não te importas, vou roubar-te "amores desencontrados" que é o título perfeito para esta história.

      Já devia estar a sonhar há muito tempo, mas estou a fazer uma tradução muito chata, e venho à blogosfera para relaxar.

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  2. Muito bem contada esta história de desamores! :-))
    E algo divertida apesar do "acidente" que aconteceu ao pobre do Filipe!

    Abraço

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    1. Muito obrigada, Rosa dos Ventos!

      Apesar do "acidente" ficamos amigos, visitando-me regularmente no Porto.

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  3. Gostei da estória que, embora nada romântica, não deixa de ser uma estória de amor. Só não percebi como é que a Ematejoca, sabendo desde os 5 anos que queria casar com um alemão, se embeiçou pelo Manuel!
    A música também não é lá muito romântica, mas isso agora não interessa nada :-)
    Terça-feira farei o link, respeitando a ordem de entrada.
    Obrigado pela participação e um excelente FDS

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    1. Eu é que lhe agradeço, Carlos, por aceitar a minha história tão pouco romântica, mas o romantismo nunca foi o meu forte.

      Embeiçar é uma coisa, casar é uma outra.

      Aos 15 anos não me queria casar com ninguém, e logo que o Manuel começou a embeiçar-se por mim, perdi imediatamente o interesse por ele.

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  4. Desencontrados mesmo! Uma história mesmo gira! Eu gostei. E também adorava dançar o Let's twist again. Adorava (e adoro) dançar o twist!

    Praia da Assafora, hein?! Lá para as minhas bandas...

    Beijinhos sintrenses...

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    1. Logo que tenha menos trabalho, continuo a escrever sobre as minhas férias na Assafora, tempo muito divertido e feliz.

      Visitei Sintra e o seu belo palácio várias vezes.

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  5. SUPIMPA!!!!
    Não a quero ver aborrecida.
    Livra!!! :)))
    Boa semana!!

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    1. Não atirei o Filipe contra o muro por estar aborrecida com o Manuel, mas sim, porque quando danço, quero ser eu a guiar, quer dizer, a ter eu o comando.

      De resto, Pedro, fui sempre uma menina muito dócil e prendada.

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  6. Que história de amor! É mesmo um amor desencontrado mas não deixa de ser uma história de amor :)

    Boa semana*

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    1. O meu baú de memórias está repleto de histórias de amor, porém canções de amor não se encontra lá nenhuma.

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  7. Eu adorei esta história! Identifiquei-me com duas situações: uma a de estar escondida para evitar dançar com quem não queria e a outra de uma certa raiva de ver o meu preferido estar todo embevecido com outra :)))
    Há uma altura nas nossas vidas em que parece que andamos todos desencontrados!!!
    xx

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    1. Muitíssimo obrigada, Papoila!

      A minha raiva nem era o Manuel andar embevecido pela Zu, mas sim, ela ser uma mulher com um corpo escultar, enquanto que eu era uma tábua rasa.

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  8. Uma estória muito bem contada e muito divertida!
    Gostei de a ler.

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    1. Fico satisfeita em saber que a Catarina gostou da história, que tinha que ser divertida como o tempo todo que passei na Assafora.

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  9. Bela e divertida história, com desencontros amorosos e alguma violência para apimentar... :))No fundo tudo isto é paixão. E também gosto da música. :)

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  10. Ainda bem que gostou da história, Luisa.

    O Filipe era um rapaz muito apagado e esta minha inofensiva violência proporcionou-lhe ser o centro das atenções por uma noite.

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