Murmúrio

Foi numa noite de Inverno, em que eu fui, serei, lembrado, imaginado, não interessa, crendo em mim, crendo que sou eu, não, não vale a pena, dado que há os outros, onde, no mundo dos outros longos percursos mortais, sob o céu, com uma voz, não, não vale a pena, e com que mexer, de vez em quando, também não, dado que os outros passam, os autênticos, mas sobre a terra, certamente sobre a terra, o tempo de uma nova morte, dum novo despertar, esperando que aqui isto mude, que qualquer coisa mude, que faça nascer mais adiante, ou então ressuscitar, no fundo de fora deste murmúrio de memória e de sonho.  

Samuel Beckett, Textos para Nada XII

Kommentare

  1. São textos muito bonitos, não são Textos para Nada

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    1. Na verdade, Pedro, toda a obra de Samuel Beckett são Textos para Tudo.

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  2. Li com os meus olhos, entendi com o meu entendimento as entrelinhas.

    Todo o texto para nada se torna um texto, de facto, para tudo.

    Beijo

    Laura

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  3. Por vezes o Nada é uma imensidão de coisas, pensamentos, recordações. É o caso deste texto

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