PÁSSAROS PROIBIDOS

Nos tempos da ditadura militar, os presos políticos uruguaios não podem falar sem licença, assobiar, sorrir, cantar, caminhar rápido nem cumprimentar outro preso. Tampouco podem desenhar nem receber desenhos de mulheres grávidas, casais, borboletas, estrelas ou pássaros.
Didaskó Pérez, professor, torturado e preso por ter idéias ideológicas, recebe num domingo a visita de sua filha Milay, de cinco anos. A filha traz para ele um desenho de pássaros. Os censores o rasgam na entrada da cadeia.
No domingo seguinte, Milay traz para o pai um desenho de árvores. As árvores não estão proibidas, e o desenho passa. Didaskó elogia a obra e pergunta à filha o que são os pequenos círculos coloridos que aparecem nas copas das árvores, muito pequenos círculos entre a ramagem:
— São laranjas? Que frutas são?
A menina o faz calar:
— Shhhh.
E em tom de segredo explica:
— Bobo. Não está vendo que são olhos? Os olhos dos pássaros que eu trouxe escondidos para você.

Eduardo Galeano «MULHERES»

Kommentare

  1. Que bonito!

    Ai, aquela tarte! Posso ciomer um bocadinho, posso?:))

    beijinhos

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  2. De se ficar com as lágrimas nos olhos!

    Abraço

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  3. É em ler coisas assim que só o facto de algumas pessoas respirarem, dá-me volta ao fígado...

    ;)

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  4. Até uma criancinha de 5 anos conseguiu enganar esses esbirros de ditadura!

    Beijinhos!

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  5. Clap, clap, clap (sou eu a bater palmas).
    Lindo!!!

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  6. Não li “Mulheres”. Deliciei-me com este excerto, uma pequena pérola!
    Grato por partilhá-lo.
    Pouco, quase nada, conheço da obra de Galeano. Li “As veias abertas da América Latina”; algumas reflexões sobre a utopia; “Espelhos” (leitura ainda não concluída, talvez um dia chegue ao fim…), e, “O Livro dos Abraços”.
    Não encontro em Galeano a magia, por exemplo, do colombiano Garcia Marquez. Penso, mas tal não passa da minha opinião, que pouco vale, que a sua escrita tem mais o traço jornalístico do que, propriamente, literário.
    Isso é, aliás, bem visível em “O Livro dos Abraços”, conjunto de pequenas histórias que ele foi ouvindo e recolhendo, decidindo contá-las. Foi dele que retirei a frase que coloquei no comentário ao seu post seguinte. Histórias notáveis, como notável é o que está escrito na contra-capa do livro: “Abra este livro com cuidado: Ele é delicado e afiado como a própria vida”. E É!
    As histórias que Galeano nos conta não as ouviu apenas de pessoas, também as encontrou em objectos, como, por exemplo numa parede em Santiago do Chile onde leu: “Bem-aventurados os bêbados, porque eles verão Deus duas vezes:”
    Um abraço do amigo de longe.
    Bom Domingo, esperando, calmamente, o resultado das eleições.

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