História do Cerco de Lisboa de José Saramago

"Tão largo rodeio, tornado irresistível por esse jeito que as palavras têm de puxar umas pelas outras, parecendo que não fazem mais do que seguir o desejo de quem finalmente terá de responder por elas, mas levando-o ao engano, a ponto de deixarem, quantas vezes, a ponta da narrativa abandonada num lugar sem nome e sem história, o puro discurso sem causa nem objectivo, cuja flutuação precisamente o irá tornar apto a servir como cenário ou adereço de não importa que drama ou ficção, este rodeio, que principiou por indagar sobre horas de sono e vigília para vir a rematar em gasta reflexão sobre a curteza das vidas e a longevidade das esperanças, este rodeio, acabemos, encontrará justificação se, subitamente, nos perguntarmos quantas vezes, ao longo da vida, vai uma pessoa à janela, quantos dias, semanas e meses ali passou, e porquê. Geralmente, fazemo-lo para saber como o tempo está, para estudar o céu, para acompanhar as nuvens, para devanear com a lua, para responder a quem chamou, para observar a vizinhança, e também para ocupar os olhos distraindo-os, enquanto o pensamento acompanha as imagens do seu discorrer, nascidas como nascem as palavras, assim. São relances, são momentos, e longas contemplações do que não chega a ser olhado, uma parede lisa e cega, uma cidade, o rio cinzento ou a água que escorre dos beirais."

Editorial Caminho, 3ª edição, Outubro 1997, pag.115/116

Kommentare

  1. Pensa que eu não sei?
    Quem escreveu este texto
    foi "ninguèm"
    ninguém além de ele
    escreveria tão bem
    Por isso deve ter nome de rua
    Embora saiba que lhe não convém
    e como ficaria bem
    ter como morada
    Rua de "Ninguém"

    Vê como adivinhei?

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  2. Ah, falta dizer a Obra
    mas isso...
    isso...
    "Ninguém" saberia!

    Boa?

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  3. Deixemo-nos de rodeios...o Rogério já respondeu!

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