Tinha quinze anos

Tinha quinze anos.
Sardas no nariz. O nariz arrebitado. Os olhos azuis. O cabelo crespo.
Tinha um namorado. Tinha dois namorados. Tinha muitos amigos.
Também tinha amigas. E discos, e livros, e irmãos..., e um cão. Também tinha um cão.
O cão era feio. Ela..., nem por isso.
Escrevia versos.
Ninguém lia os versos.
Sentia-se adulta — nos seus devaneios. Sentia-se mal — nos bailes da escola.
Ria às gargalhadas. Chorava baixinho. Fumava em segredo, e em segredo lia... histórias infantis.
As cartas de amor cheiravam a flores. Gostava do mar e apregoava a beleza do campo. Tinha um gosto gaiato de criança-mulher. Os vestidos claros.
Usava blue-jeans e camisas escuras nos seus piqueniques. Remava no lago - tinha as mãos calejadas. Escrevia aos seus fãs.
Aceitava a vida, e devolvia-a depois, só em sensações.
Era boa terra.
Inculta, bravia. Não admitia jardineiros...
Suportava a família. O Natal comovia-a. Discutia Tolstoi. Não sabia quem era. Discutia Tolstoi apesar de tudo...
Católica?
Um pouco.
Mulher?
Ainda não.
Criança?
Hum... não sei.
Feminina?
Ora...
Boémia e caseira; selvagem e meiga; criança e adulta; altiva e humilde; inocente e má; frágil e guerreira...
Estranha rapariga!
Estranha?, porquê?
Tinha olhos azuis, sardas no nariz, o cabelo crespo... Tinha quinze anos.

Maria Lucília Bonacho
A Herança do Príncipe Boémio

Kommentare

  1. Gostei muito deste mini-conto! Tem jeito a poesia em prosa... :)

    Beijinhos!

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  2. Muito bonito. Ter quinze anos é ter todas as contradições dentro de si.
    Bjs

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  3. Muito bom, Teresa. Tb já tive 15 anos :)))

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  4. É a irreverência. Muitos chamam-lhe feitio. Comum na adolescência.

    Um texto saboroso.

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  5. Chamava-se Nini e vestia de organdi?
    Belíssimo conto que me fez lembrar a também belíssima canção do aulo de Carvalho " Nini dos meus 15 anos"

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  6. Está adorável! Tem aquele gosto a nostalgia! Fez-me recordar alguns momentos da minha adolescência! Faltavam-me era os olhos azuis e as sardas! :)

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