Manoel de Oliveira vai ser agraciado esta noite com a Berlinale Kamera do Festival Internacional de Cinema de Berlim


Manoel de Oliveira é hoje homenageado pela organização do Festival de Berlim, que lhe atribuiu o prémio especial Berlinale Kamera pelo conjunto da sua carreira, entregue na estreia mundial, fora de competição, do seu novo filme, "Singularidades de Uma Rapariga Loura", que decorre esta noite na capital alemã.
Mas a adaptação de Eça de Queiroz pelo mestre centenário foi mostrada em antecipação à imprensa ao fim da tarde de ontem. Os 250 jornalistas que enchiam a sala receberam o filme (que dura apenas 64 minutos) com risos de reconhecimento, aplausos entusiastas e alguma perplexidade, consoante conhecessem a obra do cineasta ou a descobrissem pela primeira vez, e quase não houve abandonos.
Após a sessão, Manoel de Oliveira respondeu durante cerca de uma hora a perguntas entusiastas de jornalistas maioritariamente europeus, numa conferência de imprensa pouco concorrida devido ao horário tardio, sobreposto ao início das projecções da noite.
O cineasta, que admitiu "não ter mérito nenhum nos meus cem anos - é um capricho da natureza", explicou que a sua decisão de filmar Eça de Queiroz "já tardava".
Oliveira não tocou no diálogo original, que manteve intacto, mas actualizou a acção para os nossos dias. "A Lisboa do século XIX era completamente diferente e tornava-se caro e difícil reconstituí-la."
Admitindo que se trata de um filme sobre "valores essenciais que na modernidade se perderam", o cineasta apontou a actualidade da história - "a situação do Macário", o herói nominal da história, guarda-livros que ganha e perde uma fortuna, "é semelhante à situação dramática [que se vive hoje em dia]".
Também presentes na conferência de imprensa, os actores Catarina Wallenstein, Ricardo Trêpa (neto do realizador) e Filipe Vargas e os produtores François d'Artemare e Luis Miñarro elogiaram a visão de Oliveira.
François d'Artemare, que trabalha aqui pela segunda vez com o realizador após Cristóvão Colombo - O Enigma, realçou: "O filme já está montado na cabeça do Manoel. Ele tem uma capacidade de concentração e de trabalho únicas, fixa no início da rodagem uma linha e segue-a até ao fim. Já traz o trabalho de casa feito, e isso permite-lhe fazer dois, três, quatro filmes por ano."
Três filmes por ano
"Oxalá possa eu fazer até três filmes por ano como sugeriu o François," disse mais tarde Manoel de Oliveira, que confessou esperar ter o seu próximo filme pronto para Cannes, embora não tenha ainda certezas se isso será possível.
Ao longo da conferência de imprensa, o realizador citou cineastas com quem sente afinidades, como Luis Buñuel, Robert Bresson, "os mestres alemães como Fritz Lang, Murnau ou Lubitsch", ou Orson Welles, mas confessa não acompanhar o que se faz hoje em dia.
"Em casa tenho imensa falta de espaço e na vida tenho imenso falta de tempo, e não dou solução nem a um nem a outro. Mas há um realizador português de que gosto muito, o Pedro Costa, que tem um modo de filmar muito correcto. Uma vez, ele disse-me que eu filmava os ricos, ele filmava os pobres. Respondi-lhe que eu filmo as almas - e as almas tanto há nos ricos como nos pobres", afirmou o cineasta Manoel de Oliveira.

Kommentare

  1. Há ano e meio viajei numa carruagem onde vinha o Manoel de Oliveira do Porto para Lisboa - ele anda sempre de comboio de tal modo que a CP deu o nome dele a um novo comboio -, só o vi no fim da viagem mas não me perdoo de não ter falado com ele, grrrrr

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  2. Falta de tempo, para quem já viveu 100 anos, é obra!!!

    Não aprecio os filmes dele, achei piada a "quase não houve abandonos" (da sala de cinema). Ele teve um tão grande e tão chato, que a sala acabava sempre às moscas... ;)

    Boa noite, Teresa!

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  3. Pois eu, apesr de não apreciar de sobremaneira os seus filmes, curvo-me perante o seu trabalho e o esforço que fez em remar sempre contra ventos que se lhe opunham.
    É um grande Homem, dos poucos que levou Portugal aos quatro Cantos do Mundo, sem nunca renegar a sua Pátria.
    Parabéns Manoel de Oliveira!
    Parabéms Teresa por no-lo ter feito recordar
    Um abraço
    Licas

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  4. Manoel de Oliveira já eu conheco!
    Afinal nem tudo esta perdido!
    beijinho Teresa.

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  5. Olá Teresa

    Manoel de Oliveira, quer se goste ou não, é um grande do cinema.

    Curiosidade, uma escola de Aldoar tem levado a cabo projectos sobre o cinema de Manoel de Oliveira. E outra é a de ele ser um frequentador assíduo da FLUP, não admira, é de uma família muito conhecida do Porto.

    E agora vou por aí acima recuperar o que perdi ontem, pois ainda estou com uma telha danada.

    Subo

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