Cai neve na Natureza- e cai no meu coração

Não queria trazer os horrores desta guerra assustadora ao
"ematejoca azul". Claro que, todas as guerras são tremendas, mesmo as pequenas guerras particulares, as chamadas guerras de família, ou mesmo a guerra interior com nós próprios. Porém esta guerra é extremamente cruel e de uma sujidade incrível. Não tomo partido nem pelo Exército israelita, nem pelas milícias do Hamas. Penso mesmo, que é difícil e perigoso pronunciar o nome de um culpado. Neste conflito infernal há culpados e inocentes de ambos os lados.
Não obstante a minha vontade de ignorar tudo o que se passa fora do meu mundo idílico, às vezes não consigo. Hoje foi uma dessas vezes, ao ler no Diàrio de Notícias o artigo
"ALZARITH TOMBADA NA RUA" do escritor e jornalista Baptista-Bastos:

Aqui, a morte não consente metáforas. A miúda está estendida na rua, um fio de sangue saiu da nuca e secou no pó da rua, a rua traça um diâmetro com a eternidade. Chamava-se Alzarith, tinha seis anos, e corria - sabe-se lá para onde? Mas corria, penso, atribuindo à modesta ideia a substância improvisada das coisas. Os miúdos são feitos para correr e transportar no riso a felicidade dos adultos. Os miúdos não nascem para sujeitos destas fotografias, marcadas pela recôndita obscenidade da morte. Podemos, talvez, reconstituir, mentalmente, o silêncio de depois do tiro fatal. A rua está deserta. Volátil, o pó atribui à cena uma densidade inesperadamente bela, comovente e humilde. Alzarith, os cabelos longos de Alzarith parecem uma estrela no chão; os braços de Alzarith estão abertos, crucificados num espanto sem palavras, num assombro sem piedade; e uma das pernas ergue-se levemente. Jaz. A fotografia não é o mudo instante de uma tragédia. É o absoluto da infâmia. É a insuportável humilhação aplicada pela morte. Sem tecto, entre ruínas. Lembro Raul Brandão, pelo desamparo exposto no corpo caído numa rua de prédios cavernosos, fieiras de cavos olhos desorbitados. Nem vivalma - e a rua é longa e larga. Pressente-se o silêncio e a desolação. A quem pertence esta Alzarith, cujo nome o repórter fotográfico apôs na legenda, tirando-o do árabe antigo e cujo ambíguo significado poderá ser: a que ninguém conhece. Mal aplicado o nome: alguém deverá, certamente, conhecer a menina caída na rua. Serão vivos, ainda, os pais? Terá irmãos e irmãs? Quem a chora? Quem a procura? Quem por ela desespera? Houve um homem desavisado, e certamente em dia de cólera, que descarregou, em duas frases cruéis e cegas, o secreto desassossego que o perseguia: "Todos somos culpados. Ninguém é inocente." Alzarith é culpada de quê? De ter nascido num mundo concentracionário, de ser cativa de uma época da qual tudo ignoramos ou tudo desejamos ignorar? A fotografia evoca a perda de sentido e, também, a teatralização com que a morte se ornamenta, sem arrependimento nem pesar. O conceito de crime (penso agora, examinando, detidamente, a imagem e o que ela oculta) adquire, aqui, uma envergadura difícil de interpretar. A comparência do horror, ei-la, como urgência universal da memória e da auto-acusação. Multiplicam-se as declarações piedosas. As metáforas do arrependimento, da confissão e das desculpas passam a outra escala. E Alzarith está estendida na rua, tornando-se numa outra banalidade da aversão e do ódio. Na gíria, foi reduzida a um bom "boneco", tema de primeira página de jornal ou de capa de revista. Inventaram-lhe um nome. Porém, será sempre ela, a menina morta numa poeirenta rua de Gaza.

Kommentare

  1. Boa Noite Teresa

    Eu não gosto de reagir a quente sobre acontecimentos demasiado sérios, nem acho correcto fazer das imagens de vítimas propaganda política, ou de terrorismo de opinião. Não sou permeável ao uso e abuso da morte estampada, ou escancarada nos órgãos de comunicação social.
    Há que ter respeito pela face, pelos rostos de quem sofre. Opinião política tenho-a, mas nunca nesta situação a divulgaria.
    Nunca esquecerei as palavras de um médico em África, quando uma repórter descaradamente fotografou doentes com HIV, em estado terminal: "Minha senhora tenha vergonha e respeite a morte!"
    Sim, é dramática e trágica a máscara da morte em palco de guerra, mais horrendo ainda quando se sabe que se gastam milhões e milhões em armamento e tanta gente morre de fome por esse mundo fora.

    Eu mantenho a fé no ser humano, mantenho a minha firmeza de esperança num mundo ideal e belo.

    Beijinhos
    Isabel

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  2. Confesso que nem abri o link.

    Há mortes que são suficientemente terríveis e injustas, sem ser necessário transformar-nos em "mirones": dói só de imaginar! E os "Ses" que se levantam: E "Se" não tivesse nascido aqui mas num país em guerra? E se essa menina fosse a minha filha? E se...

    Enfim, as guerras revoltam-me!

    Saudações, Teresa!

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  3. Como tenho dito, as questões políticas e religiosas nessas regiões são muito complexas. todos parecem ter razão em seus argumentos, mas a violência não pode ser a resposta para nenhum desses argumentos. diferente da isabel, eu não tenho fé no ser humano porque nossa natureza é ruim. é a civilização e a cidadania que nos tornam dignos. portanto, em guerras, volta a nossa natureza, já que as privações e tragédias são muitas, e os seres humanos voltam a ser irracionais. por isso que a paz é sempre o caminho. fome e miséria nos faz hediondos. basta ler o livro ensaio sobre a cegueira do saramago apra entender o que digo. beijos, pedrita

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  4. Ataques em Gaza já mataram mais de 200 crianças. Ao todo, são mais de 700 mortos e 2,9 mil feridas
    Ex-relator da ONU: 'Cessar-fogo de 3 horas é piada'
    Israel errou em ataque perto de escola?
    Todos os dias estamos ouvindo e lendo isso. O que os levam a isso?
    Que Deus nos ajude. Abraços

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  6. Se um povo quiser independência a ONU vai defender sempre o direito desse povo a ser um estado livre (direito de livre determinação dos povos). Mas nunca vai concordar com a violência, é por isso que nenhum dos dois tem razão, nenhum é a vitima... claro que a Palestina não cedeu num direito básico de Israel (independência), mas por exemplo, em Portugal á poucos anos, também lutamos com os territórios ultra marinhos para eles continuarem em nossa posse... mas isso foi por causa da ditadura, um dos ideais dos regimes ditatoriais é o imperialismo... anos negros...


    Pena que as coisas só funcionem desta maneira, neste mundo que já nem tento compreender...

    Os políticos agem como eu a jogar um jogo de estratégia online (travian :P), para eles as tropas são números, e são para morrer pelo bem deles... :S (incompreensível)

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  7. BOM DIA TERESA

    6 horas da manhã, que sossego na rua.

    Inteiramente de acordo com aquilo que disse o Grifo. O cessar fogo, já que não me posso calar, foi desrespeitado pelos palestinianos. Quem fala das vítimas israelitas?

    Hoje além de cotovia acordei gralha.

    Beijinhos
    Isabel

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  8. Noto aqui, na Alemanha, uma maior simpatia pelo exército israelita do que pelas milícias do Hamas. Tem a ver com a História Alema -
    e com as atrocidades feitas aos Judeus - tem também a ver com o 11de Setembro de 2001 em New York.
    Eu nao tenho simpatia por nenhum deles. Ambos sao brutais e sem um mínimo sentido de ética.
    O cessar fogo foi desta vez desrespeitado pelos palestinianos, mas sabem, quantas resoluções da ONU foram violadas por Israel? Muitas! Os Israelitas já violaram mais resoluções da ONU do que a Turquia!!!

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  9. Cai neve na Natureza
    E as flores da Primavera
    No meu coração
    Mas não cai a fortaleza
    Em cada oração

    Cai a neve e a cada passo
    Onde as sombras dormem
    Ou a luz incendeia o Verão
    Delas faço o meu regaço
    As acolho e as pinto
    Sem nenhuma distinção.

    Não tenho jeito nenhum para rimas, mas saíu assim.

    Teresa eu só tenho fé na Arte e é ela a minha religião, o resto é a consequência de um mundo construído sob(re) as ruínas do mal. A Arte é uma utopia, mas é ela que ainda nos faz sonhar.
    Li um artigo sobre a posição de muitos intelectuais israelitas e eles não apoiam a tendência beligerante dos seus governantes.

    E continuo a acreditar no bem, sabendo que o mal existe, mas até Jesus foi tentado e venceu. Só não vence quem se deixa intimidar com as sombras e se esquece da luz. É este o ponto de equlíbrio que gostaria de encontrar no meu caminho. Quem tem o poder do mundo nem sombras nem luz recolhe, mas espalha cinzas "numa mão cheia de pó":

    What are the roots that clutch, what branches grow
    Out of this stony rubbish? Son of man,
    You cannot say, or guess, for you know only
    A heap of broken images, where the sun beats,
    And the dead tree gives no shelter, the cricket no relief,
    And the dry stone no sound of water. Only
    There is shadow under this red rock,
    (Come in under the shadow of this red rock),
    And I will show you something different from either
    Your shadow at morning striding you
    Or your shadow at evening rising to meet you;
    I will show you fear in a handful of dust.
    EXCERTO DO POEMA THE WASTE LAND, I.THE BURIAL OF THE DEAD, DE T.S. ELIOT

    Beijinhos
    Isabel

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  10. Teresa:
    Muito obrigado pelas suas palavras. Pode reproduzir todos os meus textos, se isso a interessa. Muito grato. Cumprimentos afectuosos,
    Baptista-Bastos

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  11. Teresa:
    Muito obrigado pelas suas palavras. Pode reproduzir todos os meus textos, se isso a interessa. Muito grato. Cumprimentos afectuosos,
    Baptista-Bastos

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  12. O ABRAÇÃO é retribuído!

    E agora vou escravizar-me num trabalho que me vai dar de comer, mas não me dá satisfação, pedagogias, burocracias na educação e gestão curricular. E logo eu que de burocracias fujo como o diabo da cruz, mas tem de ser.

    Bejinho
    Isabel

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  13. O ABRAÇÃO é retribuído!

    E agora vou escravizar-me num trabalho que me vai dar de comer, mas não me dá satisfação, pedagogias, burocracias na educação e gestão curricular. E logo eu que de burocracias fujo como o diabo da cruz, mas tem de ser.

    Bejinho
    Isabel

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  14. Meus Deus! Como as pessoas se deixam influenciar cegamente pela Comunicação Social!
    Por isso os países com regimes ditatoriais não permitem a liberdade de imprensa. Como aconteceu com a "nossa guerra" em
    África. Os portugueses mataram crianças, mulheres, velhos, doentes; lançaram rocketes e napalm (proibidos pela Convenção de Genebra): fizeram guerra química e bactereológica. Mas os media não podiam divulgar...
    O povo israelita é tão vítima desta guerra como o palestiniano, bolas!
    Ontem os media fizeram grande aparato numa distribuição de alimentos quentes e cobertores aos sem-abrigo em Lisboa. Eram médicos, enfermeiros, coronéis da Protecção Civil e senhoras muito ricas a fazerem caridadezinha. Que vergonha!!! Porque não acabam com os sem-abrigo?
    Beijinho, amiguinha
    António

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