Bom dia! de Diogo Hoffbauer

Profissão ingrata a de distribuidor de jornais no metro.
Até ver a sua cara de sono logo de manhã, enquanto tenta ser sorridente com um "Bom dia" disfarçadamente alegre, acho que tenho umas olheiras até aos pés. Depois de ver as dele, sobe-me o ego e começo a andar a olhar para a frente.
Sinto pena deste pobre coitado. Qual ardina do novo século, tenta acompanhar a rotineira pressa muitas vezes injustificada de centenas de pessoas que por lá passam, com rápidos movimentos de pulso e a metralhar "Bom Dia" em esforço.
De boné enterrado na cabeça, de um cor de laranja berrante, para chamar a atenção de algo que por si só já chama, que é alguém louco por cumprimentar educadamente as pessoas e tentar fazê-las vítimas do jornalismo gratuito só para ganhar umas coroas.
Aceito educadamente o "Metro" que ele me estende. Sopra o habitual "Bom dia" das quotidianas manhãs, com um olho em mim e outro já na mulher gorda que tenta desesperadamente correr para apanhar o transporte, mas que vai ser interceptada não tarda nada por este predador atento que é o homem dos jornais.
Às vezes penso seriamente em ficar na conversa com ele, fazer-lhe a companhia que ele merece, mandando assim ambos à fava os nossos deveres, os meus estudantis, os dele já mais profissionais, mas ainda assim prefeitamente dignos de serem de quando em vez abandonados. Poderíamos falar de qualquer coisa, porque o homem que distribui os jornais gratuitos deverá ficar com algum para ele para ler quando tiver tempo, mantendo-se assim informado das incidências internacionais.
Ele tem ar de quem gosta de futebol, será certamente portista: poderíamos discutir tácticas, opções técnicas, resultados, futebolistas em ascensão, treinadores que se deviam dedicar à pesca, foras-de-jogo mal assinalados e penalties por assinalar. Poderíamos especular em conjunto acerca do que terá acontecido à menina inglesa, eu a culpar os pais, ele a criticar a atitude redentora do governo português face à superioridade do inglês. Podiamos discutir política, alterar reformas especulativas, chamar nomes aos ministros, questionar palavras, criticar gestos, aplaudir atitudes. Podiamos falar de televisão, calar a Júlia Pinheiro com a fita-cola da opinião pública, enxovalhar novelas, comentar séries. Podiamos falar de tudo e mais alguma coisa.
Mas não falamos.
Ele estende-me o jornal, diz "Bom dia", coça a orelha com uma mão e com a outra já está a interceptar outro apressado peão.
Eu aceito,agradeço, leio a primeira página, valido, vejo as horas e penso na rapariga que me preenche os dias.

Kommentare

  1. ótimo texto. realmente há trabalhos que trazem horários difíceis de cumprir com ótimo e verdadeiro bom humor. beijos, pedrita

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  2. VIERAM-ME AS LÁGRIMAS AOS OLHOS AO LER ESTE TEXTO TERESA.
    Está excelente.
    Não vou sequer comentar
    Beijinhos hoje pela grande sensibilidade do texto.

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