Nao é Karl Marx mas John Maynard Keynes o homem do momento

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"Marx nunca teve tanta razão como hoje"

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O capitalismo morreu? Marx tinha razão? Não. O que pode ter morrido é uma forma de capitalismo que teve o seu zénite na América, que acreditou em demasia na racionalidade dos mercados. É Keynes quem pode ter afinal alguma razão. Por Teresa de Sousa

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Kommentare

  1. "As capas da imprensa mais séria do mundo inteiro já imprimiram todas as interrogações. O capitalismo acabou? Ou foi apenas uma espécie de capitalismo? Qual? O americano? O anglo-saxónico? O especulativo? Estamos à beira de um acontecimento de dimensões tectónicas, idêntica às da Grande Depressão de 1929-33? Como foi possível? Vivíamos instalados em certezas que nem o 11 de Setembro conseguira abalar. Passamos a viver com incertezas para as quais não temos qualquer bússola a não ser ir buscar à História as palavras "proibidas" e os velhos autores há muito caídos em desgraça.
    Regressado do baú das velharias para o qual tinha sido remetido depois de 1989, o rosto de Karl Marx, o filósofo do século XIX que lançou as bases teóricas do comunismo, voltou a ser impresso, geralmente acompanhado por uma interrogação: afinal, ele tinha razão? Não, claro está, na sua teoria da luta de classes que conduziria inevitavelmente à ditadura do proletariado e à sociedade sem classes. Mas na sua análise do próprio sistema capitalista que, de crise em crise, caminharia inexoravelmente para a sua crise final.
    George Soros, o especulador-filantropo que já andava a avisar para as consequências dos excessos do capitalismo financeiro, confessou recentemente que voltara a ler o filósofo alemão e que havia "muitas coisas interessantes naquilo que ele dizia". O ministro social-democrata das Finanças do governo de Berlim, Peer Steinbrueck, admitira recentemente que "certas partes da sua teoria não são assim tão falsas". "Como aquela que diz que o capitalismo acabará por se autodestruir por força do excesso de avidez." O fenómeno nem sequer é apenas de hoje. Em 2003, a revista francesa Nouvel Observateur (centro-esquerda) dedicou-lhe um número com um título de capa premonitório: "O pensador do terceiro milénio?" Mas era mais como um fascinante objecto de curiosidade intelectual do que como uma fonte de ensinamentos. O marxismo morrera sob os escombros do Muro de Berlim, deixando antever uma paisagem económica "anticapitalista" tão desoladora que ninguém estava verdadeiramente interessado em copiar. Ao contrário da sua profecia, o capitalismo saíra vitorioso e preparava-se para reinar sobre os quatro cantos da Terra.
    Terá sido nesse momento da proclamação da vitória da democracia e do mercado, dizem hoje muitos autores, que começou a "embriaguez" capitalista que nos conduziu até hoje. Quando Francis Fukuyama proclamou o fim da História e a avassaladora expansão da economia de mercado e da democracia liberal. Quando a vaga de liberalização dos mercados fez acreditar que as crises do capitalismo eram águas passadas.
    O capitalismo não morreu
    A pergunta sobre o fim do capitalismo é, pois retórica e Marx irá voltar rapidamente para as prateleiras das bibliotecas universitárias para cobrir-se de pó.
    O que acabou foi, porventura, uma forma de capitalismo, alimentada por uma teoria económica e por uma ideologia política que teve o seu zénite nos últimos trinta anos e a sua pátria na América. Que se transformou na prescrição oficial de Washington para as instituições e os governos do mundo inteiro. Que a Europa continental nunca aceitou totalmente mas à qual se rendeu pela sua eficácia e porque se esgotava o seu próprio modelo de Estado social. Que presidiu à globalização dos mercados e a uma época de enorme enriquecimento mundial.
    E que acaba de ver escrito o seu mais perfeito epitáfio. Alan Greenspan, o poderoso chefe da Reserva Federal americana que nenhum Presidente, desde Reagan, ousou destronar, que foi o Papa da religião dos mercados financeiros e que criou uma Igreja de milhões de seguidores, foi humildemente ao Congresso americano reconhecer que se tinha enganado. O que se passou nessa tarde de 23 de Outubro é, talvez, a mais perfeita imagem do fim de uma era.
    "Quando Greenspan abandonou o cargo, há dois anos, o Congresso tratou-o como um oráculo, um dos maiores economistas de todos os tempos", escreveu no dia seguinte o Washington Post. "Ontem, muitos dos membros do Comité da Câmara de Representantes [que o chamou a depor] tratou-o como uma testemunha hostil."
    "Pensa que a sua visão do mundo, a sua ideologia, não estavam certas, não estavam a funcionar?" "Absolutamente. É essa precisamente a razão pela qual fiquei chocado. Durante mais de 40 anos tive sempre provas consideráveis de que estava a funcionar excepcionalmente bem. (...) Cometi um erro ao presumir que o interesse próprio das organizações, especialmente dos bancos, era suficiente para fazer deles os mais aptos a proteger os seus próprios accionistas."
    Foi, escreveu Dominique Dhombres no Monde, como se os cardeais convocassem o Papa para saber se afinal Deus sempre existia e Bento XVII lhes tivesse dito que ele próprio, apesar de todos os seus estudos teológicos, tinha algumas dúvidas.
    É ele o primeiro mártir de uma crise sobre a qual só há uma certeza: que é a maior dos últimos 80 anos e que as suas consequências são ainda totalmente imprevisíveis.
    A Dívida e não O Capital
    "Se Marx regressasse não era para escrever O Capital, era para escrever A Dívida", diz Joaquim Aguiar economista e politólogo. Para ele, o que acabou foi "o capitalismo especulativo, ou seja, a utilização da moeda para gerar moeda". O que acabou "foi a doutrina económica neoclássica que postula o homo economicus como um indivíduo racional."
    Capitalismo significa "assumir riscos e ser responsável pelos riscos que se assumem", diz Maria João Rodrigues, economista, professora universitária e consultora da Comissão Europeia. "As entidades [do sistema financeiro] que assumiam riscos encontraram formas de não serem responsáveis por eles."
    Esta é uma crise de endividamento, regressa Joaquim Aguiar. O endividamento americano e a dívida implícita nas políticas sociais do Ocidente. O que quer dizer que "o capitalismo do pós-guerra chegou ao limite, como chegou a limite o domínio americano".
    Pedro Laíns, historiador das ideias económicas, prefere comparar esta crise, não com a Grande Depressão dos anos 30, mas com a crise de 1973, agravada pelo primeiro choque petrolífero, que marca o fim do sistema de Bretton Woods posto de pé em 1944 com a paridade fixa entre as moedas.
    Como Aguiar, para ele "o mais importante não é o fim do paradigma [neoliberal], são os défices americanos." Entende que o que está em causa nesta crise é muito mais importante do que alguma coisa que pudesse ser controlada por mais regulação. "Há um excesso de poupança de um lado [nas grandes economias emergentes e nos países produtores de petróleo] e um défice de poupança deste lado." A China poupa e os Estados Unidos gastam. "Isso fez com que chegasse dinheiro a mais aos Estados Unidos e o sistema não conseguiu responder a isso de forma adequada. Também em 1973 a América estava a braços com défices e com uma guerra. "Com a mesma fraqueza política e os mesmos gastos excessivos". A verdadeira mudança estrutural, conclui, é geopolítica e é isso que o sistema financeiro vai passar a ter de ter em conta.
    O sociólogo Manuel Villaverde Cabral entende que não estamos perante "o fim do capitalismo ou sequer da globalização, que hoje é sustentada por uma série de factores muito para além dos económicos." Admite que talvez seja o fim de um "capitalismo selvagem", impudente e imoral. "Esperamos, pelo menos." "Deste ponto de vista, talvez se possa dizer que o capitalismo deixou de poder legitimar-se a si próprio, voltando a ter de mostrar as suas vantagens em termos de produção de riqueza e de bem-estar."
    O regresso de Keynes
    Não é Marx mas John Maynard Keynes o homem do momento.
    O keynesianismo, que fora definitivamente enterrado por Milton Friedman e pelos economistas da escola de Chicago, acaba de renascer para justificar o pragmatismo com que os governos ocidentais tiveram de agir. Para nacionalizar a banca e para tentar impedir que a crise financeira se transforme numa séria e prolongada recessão mundial.
    O raciocínio é simples. Se foi o mais genial economista da primeira metade do século XX que ajudou o mundo a sair da Grande Depressão, quando o desemprego nos EUA ultrapassava os 25 por cento e a economia contraia outro tanto, os seus ensinamentos podem agora ajudar a evitar o pior.
    "Muito do que Keynes escreveu ainda faz sentido", disse Alistair Darling, o ministro das Finanças britânico, ao apresentar o seu pacote de medidas para relançar a economia real. Os seus pares europeus e americanos poderiam dizer o mesmo. Pôr o Estado a gastar em estradas, hospitais ou escolas e descer as taxas de juro para relançar a economia pelo lado da procura. O que fora sacrilégio até ao Verão passado, é hoje a única receita disponível. O debate sobre o inevitável regresso do Estado apenas se faz em torno de saber se é "ideologia" ou "pragmatismo". Se é para durar ou temporário.
    "Keynes era um indivíduo altamente moral e superiormente inteligente, consciente das implicações sociais da sua Teoria Geral da Moeda e do Emprego", diz Villaverde Cabral. Que duvida, no entanto, do seu regresso.
    Joaquim Aguiar entende que o que voltou "foi o capitalismo puritano em que o ajustamento às possibilidades é que determina o ritmo de evolução" e que, com ele, regressa "a economia política que articula sempre os três vectores do triângulo: política, economia e sociedade." O puritanismo como ética do capitalismo [no sentido weberiano] fazia essa articulação através da religião. O novo puritanismo vai fazê-la através da acção política." Keynes está de regresso.
    Um New Deal global
    Maria João Rodrigues diz que o que vai ser preciso são "outras formas de articulação entre Estado e mercados". Reconhece que se esgotou a agenda neoliberal mas adverte que as soluções não poderão vir do passado. Admite que aquilo que a administração Bush está a fazer, sendo igual ao que a França faz, pode significar no futuro coisas diferentes. Bush está a tapar buracos. Sarkozy proclama a necessidade de "refundar o capitalismo".
    Mas ninguém acredita que a actual vaga de nacionalizações represente algo mais do que uma necessidade absolutamente pragmática de evitar o pior. "Só se esqueceu da palavra nacionalização quem é muito novo ou tem a memória curta", diz Pedro Laíns. "O general De Gaulle nacionalizou boa parte da economia francesa" depois da guerra. O que assistimos agora "são medidas extremas para situações extremas". Não é o regresso "ideológico" do Estado que François Mitterrand tentou pela última vez em 1981 para arrepiar caminho dois anos depois.
    O que significa então o regresso das palavras e dos autores "proibidos"? Uma inevitável mudança no debate público das democracias. "Saímos finalmente de uma grande paz ideológica", diz Michel Rocard. "Vamos assistir a uma alteração radical das clivagens políticas", considera Joaquim Aguiar.
    "A crise vai durar e pode transformar-se numa oportunidade de renovação da social-democracia", acrescenta Maria João Rodrigues. Lembra que "a eleição de Obama pode impulsionar o campo social-democrata". Ou não, como ela própria admite: " A crise de 1929 gerou o New Deal americano mas não salvou a social-democracia europeia, deu origem ao populismo e ao fascismo" e foi preciso uma guerra.
    Resta, pois, a questão de saber "quem vai liderar a saída desta crise, que é económica, financeira, social e de governança mundial." Porque é preciso um New Deal que, desta vez, tem de ser global." Por Teresa de Sousa

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  2. Cara Teresa,
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    Como é que Keynes pode ser o homem do momento se os estados estão tesos, estão sem cheta?
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    Veja este artigo:
    .http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/liamhalligan/3259913/Browns-Keynesianism-is-bankrupt---and-will-bankrupt-us.html
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    Veja também este artigo:
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    http://www.imf.org/external/pubs/ft/wp/2007/wp07236.pdf
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    Sobretudo o pormenor da página 14 "Box 1. Catch-Up: The Different Experiences of Ireland and Portugal"
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    O problema de Portugal tem sido o esbanjar de dinheiro no sector dos bens não-transaccionáveis, dos quais a construção keynesiana é um exemplo máximo.
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    Onde é que países como Portugal, Itália, Grécia, e Espanha (os PIGS) vão conseguir dinheiro emprestado?
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    Veja o caso da Grécia:
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    http://www.telegraph.co.uk/finance/comment/ambroseevans_pritchard/3275375/Investors-shun-Greek-debt-as-shipping-crisis-deepens.html
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    E os investidores têm cada vez menos confiança... primeiro foram os bancos, depois os países europeus extra-euro... aproxima-se o ataque aos países do euro com a economia mais fraca.
    .
    E não sei se já ouviu a expressão mas o "yen cash-carry trade" acabou e isso é uma dor de cabeça para muitos políticos e banqueiros a nível mundial.
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  3. E mais Teresa,
    .
    Nos anos 30 e 40 grande parte da população era indiferenciada, não tinha estudos universitários.
    .
    Essa massa humana podia ser facilmente canalizada para a construção e obras públicas.
    .
    Hoje em dia, com uma faixa importante da população com formação universitária e com praticamente todas as mulheres no mercado de trabalho não creio que as obras públicas sejam uma forma de dar emprego a desempregados.
    .
    São boas para importar imigrantes e pagar-lhes uma treta.
    .

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